O filme “A forma da água”: o que nos torna humanos?

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Uma análise do filme com muitos spoilers

Por Thalita Quachio e Glória Celeste*

Revisão: Hugo Maciel de Carvalho

O que nos torna humanos? Esta é a questão principal sobre a qual Del Toro quer que seus espectadores reflitam ao assistirem a “A Forma da Água”. Ao longo do filme, o diretor lança algumas hipóteses: Seriam as características físicas? A capacidade de nos comunicarmos através da linguagem? Ou seria o sentimento de empatia, compaixão e amor pelo próximo?

O enredo se passa em Baltimore e narra a história de Elisa, uma mulher muda e solitária que trabalha como faxineira em um laboratório do governo dos EUA. O ano é 1962, auge da Guerra Fria, quando a dominação política e militar mundial estava diretamente atrelada à conquista da hegemonia técnica e científica. E é justamente uma criatura mítica, vinda da periferia desse conflito, que transformará a vida das personagens, fazendo-as questionar suas vidas e suas visões de mundo.

A abertura do filme mostra a personagem principal dormindo submersa dentro de sua própria casa. Os objetos, móveis e a própria Elisa flutuam enquanto ela sonha, livres das amarras do cotidiano. Assim que o despertador toca, todas as coisas voltam ao seu lugar: a água se esvai, os móveis descem ao chão, os objetos se depositam nos seus lugares habituais e Elisa acorda para mais um dia entediante e corriqueiro de trabalho. Esta cena é narrada por uma voz masculina em off, que só posteriormente iremos descobrir a quem pertence, e que nos diz que a história que será contada a seguir pode ser vista como uma fábula inusual de amor e perda, mas que, contudo, ela é real. Ao despertar, Elisa faz seu ritual diário (cena que irá se repetir diversas vezes ao longo do filme): prepara seu banho, coloca ovos para ferver, entra no banho e se masturba. A água onde estão os ovos vai cada vez mais se aproximando da fervura, no mesmo ritmo em que Elisa se aproxima do êxtase. A ligação da água como lugar de liberdade fica óbvia, é na água que Elisa se liberta e que se permite sentir prazer.

Elisa se relaciona com pouquíssimas pessoas, uma delas é seu vizinho Giles, um gay solitário que já passou dos 60 anos e que trabalha como ilustrador freelancer para publicidade, trabalho que, com a popularização da fotografia, começa a ser tornar obsoleto. Não só seu trabalho já está fora de moda, mas também seus gostos e suas roupas, elementos que indicam a perda de sua juventude, situação com que Giles não consegue se conformar.

Ambos são os únicos moradores de um prédio cujo térreo é ocupado por um velho cinema decadente. O próprio edifício, assim como a cidade de Baltimore, que perdeu 1/3 da sua população na década anterior, refletem a vida desoladora de seus habitantes. Existem várias discussões e resenhas sobre este filme, mas ainda não encontramos uma que falasse como a narrativa trata de vários tipos de solidão: dentro da amizade, no trabalho, no casamento — e como cada personagem lida com esse aspecto. Elisa (Sally Hawkins), Robert Hoffstetler (Michael Stuhlbarg) e Giles (Richard Jenkins) possuem características de isolamento (sentimental e sexual) e cada um por um motivo — deficiência, preconceito de gênero, isolamento por medo da xenofobia, etarismo. O filme também mostra um cenário onde todos, o vizinho dono de cinema, o general e os colegas dentro da instalação militar, lidam com os obstáculos profissionais e com a insatisfação que causa um incômodo — algumas tentativas de sair de cada impasse são infrutíferas.

Além de Giles, Elisa só tem mais uma amiga, sua colega de trabalho Zelda, uma mulher negra, casada, mas que, apesar disso, sente-se sozinha, pois seu marido prefere a televisão ao convívio com a própria mulher. Assim como Elisa, Zelda cuida da limpeza do laboratório no turno da noite. Interessante perceber como é livre o acesso das mulheres aos ambientes onde segredos de Estado são discutidos, ninguém as considera uma ameaça, pois são tidas como seres inferiores e incapazes de compreender o que ocorre no lugar.

É quando elas estão trabalhando em uma estranha sala com um pequeno lago artificial que acontece o primeiro contato com a criatura, que chega ao lugar em desespero presa dentro de cilindro com água. Nesta cena também nos é apresentado o grande antagonista do filme, Richard Strickland, novo chefe da segurança do laboratório e responsável pela captura da criatura em um rio amazônico.

Strickland é o típico estadunidense de classe média, tem uma esposa do lar e dois filhos, um emprego que lhe garante uma casa confortável e uma vida financeiramente tranquila e que ambiciona ganhar status dentro e fora do seu trabalho. Ele quer de todas as maneiras vencer, e a cena da compra do carro mostra isso — o importante é que ele comprou e se acha merecedor desta vitória sonhada. No entanto, vemos que sua vida gira em torno apenas da aparência, a qual é simbolizada no filme pela compra de um novo automóvel, um Cadillac, um dos modelos dos mais luxuosos e cobiçados. Sua mulher e filhos têm a função apenas de o elevar no ideal de homem norte-americano, pois, apesar dos poucos diálogos que tanto sua mulher quanto seus filhos tentam empreender, Strickland sempre os ignora e, em diversos momentos, se sente incomodado com a presença deles. Manifesta a vontade de que todos ficassem calados e apenas cumprissem seu papel decorativo. Racista, machista, violento e autoritário, todos aqueles que não se encaixam no modelo homem/branco/racista/heterossexual/cristão não são completamente humanos para ele.

Personagens opostos, Zelda (Octavia Spencer) e o Coronel Richard Strickland (Michael Shannon) vivem dentro de relacionamentos e estão acomodados: percebem-se presos cada um à sua maneira.  Zelda se sente sobrecarregada — mas repete sempre para si mesma e para a amiga que tem um bom casamento. Strickland, no seu relacionamento agressivo, machista e misógino com a esposa, mostra que tem traumas — quando, apesar do ambiente, lê um livro de autoajuda que incentiva o pensamento positivo —, mas no cotidiano as atitudes são de alguém que se deixou engolir pelas violências que sofreu nas batalhas. Depois que é ferido, a podridão da sua alma se manifesta na putrefação dos seus dedos enquanto o filme se desenvolve.

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Após descobrir a criatura, Elisa começa a tentar se comunicar e, como é muda, usa outros elementos para isso. Todos os dias, durante o seu trabalho, Elisa vai até o pequeno lago artificial onde o ser é mantido e oferece ovos e leva música, ensinando-o os sinais correspondentes e estreitando cada vez mais o laço de amizade. Dessa forma, vemos que a cognição da criatura opera através de uma outra lógica, diferente da linguagem verbal, uma lógica mais próxima à que Elisa está habituada. Isso explicita a nossa incapacidade de pensar que o outro pode ser tão inteligente quanto nós, basta que não nos limitemos à nossa forma de visão e compreensão de mundo, nos mantendo abertos a outras possibilidades e construções de pensamento.

Em uma dessas visitas de Elisa à criatura, descobrimos que ela vem sendo observada por um dos cientista do laboratório, o Dr. Robert Hoffstetler. Principal responsável pelas pesquisas sobre o ser, ele vê com animação o progresso da comunicação entre Elisa e a criatura, acreditando que a descoberta de um outro ser com inteligência possa representar um enorme avanço para a ciência. Logo nos é revelado que o cientista, na realidade, é um espião russo, chamado Dimitri, que pretende, junto com outros agentes da KGB, roubar a criatura e levá-la à URSS com o intuito de, devido à anatomia peculiar da criatura, enviá-la ao espaço em condições que os humanos não poderiam sobreviver. No entanto, além das suas convicções patrióticas, Dimitri nutre um real interesse pela criatura e por tudo o que este ser, capaz de usar uma linguagem para se comunicar, pode fazer pela ciência. Assim como Elisa, Elza e Giles, Dimitri também é solitário e suas únicas relações nos EUA são estritamente profissionais e com os outros membros da KGB. Por uma simples questão de demonstração de autoridade, o chefe militar do laboratório, aconselhado por Strickland, decide que a criatura deve ser vivissecada, apesar do apelo do Dr. Robert Hoffstetler. Elisa ouve a conversa entre eles e decide salvar seu novo amigo e, para tanto, pede a ajuda de Giles.

O plano é posto em prática e, no meio do resgate, eles recebem auxílio inesperado do cientista e de Zelda. Todas estas personagens solitárias se unem inesperadamente para libertar um ser ao qual, apesar de todas as diferenças, compreendem e pelo qual sentem empatia. Até que chova o suficiente para encher as docas e liberar a criatura ao mar, ela é levada para a casa de Elisa e instalada em sua banheira. À medida que os dias passam, Elisa e o ser se aproximam cada vez mais e se apaixonam.

A cena em que os dois fazem sexo é bastante interessante e também demonstra como a água está relacionada com a liberdade da protagonista: Elisa decide inundar o próprio banheiro para que ela e a criatura fiquem submersos, a madeira da laje do edifício encharca e a água começa a escorrer pelo cinema no piso inferior, onde é exibido um filme bíblico. Assim, a água que verte pode ser interpretada como o amor dos dois, que permeia a narrativa expondo barreiras e tabus, inclusive religiosos. O elemento que atravessa todo o filme é ao mesmo tempo indicativo dessa dificuldade de movimento dos personagens humanos para sair deste estado, uma dificuldade de locomoção que muda com a aparição da criatura, com sua celeridade, e faz os personagens fluírem para caminhos antes inesperados e com movimentos surpreendentes. Mas o monstro chega. Não é somente Elisa que é libertada pelo amor, mas também a criatura, que, apesar de ser cultuada como um deus na Amazônia, também é isolada e solitária. Todas as personagens parecem estar estancadas, presas em sua própria solidão, como se estivessem cativas dentro de um minúsculo aquário. É o encontro e a aceitação do outro que permitem que a vida das pessoas passe a fluir. E aqueles que negam o verdadeiro encontro, caso de Strickland, cujas relações são baseadas no status, numa falsa moral e na aparência, não apenas permanecem estagnados, mas apodrecem e sucumbem.

No encerramento do filme, assim como na abertura, Elisa está submersa, não mais em sua casa, mas no mar, e também não está mais sozinha, a criatura a acompanha. A mesma voz, que agora sabemos que é de Giles, fala sobre o amor, que aceita o diferente e transpõe qualquer obstáculo. Deste modo, o questionamento inicial do filme é respondido: é a capacidade de amar e aceitar o outro o que nos torna humano. Aceitação que não deve se restringir apenas às características físicas, mas também ao modo como outro apreende o mundo — é o que fica evidente com a escolha de misturar duas formas narrativas distintas, a científica e a fantástica. No filme, não há conflito entre a ciência e o fantástico, não há vencedor, ambas as formas de ver o mundo podem coexistir.

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Ficha técnica
Filme: “A forma da água”
Estados Unidos, 2017, 123 min.
Direção: Guillermo del Toro
Produção: Guillermo del Toro e J. Miles Dale
Roteiro: Guillermo del Toro e Vanessa Taylor
Elenco: Sally Hawkins, Michael Shannon, Richard Jenkins, Doug Jones, Lauren Lee Smith, Michael Stuhlbarg, Octavia Spencer.
Oscar de Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Trilha Sonora e Melhor Direção de Arte.

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* Thalita Quachio é formada em Processamento de dados e História pela USP, atua como analista de sistemas há 15 anos.

Glória Celeste Bahia de Brito é bacharel em Língua e Literatura Alemã. Atua na área administrativa, pesquisa a área de linguística e tecnologias.

 

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