Cobertura – 1º Festival Literatura Fantástika: Um Brasil Irrealista – Parte 1

Especial:
1º Festival Literatura Fantástika: Um Brasil Irrealista

Cobertura do evento:
Literaturas fantástikas: a realidade brasileira é uma ficção científica?
27.01.2018 – Tapera Taperá – São Paulo/SP

Participaram:
Cláudia Fusco. Jornalista e mestre em Science Fiction Studies pela Universidade de Liverpool, na Inglaterra. Já ministrou cursos em espaços como Museu da Imagem e do Som, Casa do Saber, USP e Youpix (por voto popular).
Fábio Fernandes. Escritor, autor de “Os dias da peste”, entre outros. Tradutor de China Miéville, Philip K. Dick e William Gibson. Incluído na antologia “The Lightspeed: People of Colo(u)r Destroy Science Fiction!”, vencedora do British Fantasy Award.
• Mediação: Ana Rüsche. Escritora com seis livros publicados. Doutora em Letras pela FFLCH-USP com tese sobre utopia e feminismo, na qual investigou obras de Margaret Atwood e Ursula Le Guin. Participa da Fantástika 451.

Público:
47 pessoas presencialmente.
1.047 acessos à transmissão online.

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O evento de abertura do 1º Festival Literatura Fantástika foi realizado no dia 27 de janeiro na Tapera Taperá, livraria bastante aconchegante perto da Praça da República, no centro de São Paulo. Apesar do sábado de típica garoa paulistana, a presença de público foi expressiva, dando início às atividades com casa cheia, além de ampla visualização da transmissão online.

Contamos com a participação de dois grandes especialistas na literatura fantástika: Fábio Fernandes e Cláudia Fusco. A mediação ficou a cargo da Ana Rüsche. O público participou ativamente, colaborando para enriquecer o debate ao trazer sugestões de autores, questionamentos pertinentes e comentários de quem também lê e escreve essas literaturas.

Antes de iniciar o debate, Ana nos brindou com uma emocionante homenagem a Ursula Le Guin, que recentemente nos deixou rumo a novas galáxias. Reproduzo aqui o texto, escrito por Jana Bianchi, autora de Lobo de Rua e editora da Revista Mafagafo:

“No dia 23 de janeiro, Ursula Le Guin partiu da Terra em sua última turnê. Não por vontade, mas por falta de espaço — suas palavras enfim alcançaram cada canto de cada linha temporal existente e, como é sabido, é doloroso reprimir a irradiação das grandes ideias. Ela deve iniciar o tour por Tembreabrezi. Em seguida deve visitar Gethen, fazer uma breve parada em Omelas, passar por Anarres and Urras e então seguir viagem conforme for requisitada. A única coisa que sabemos com certeza é que o destino final de Ursula será o arquipélago de Terramar, onde deve ocupar seu lugar de destaque entre os feiticeiros que sabem os verdadeiros nomes de todas as coisas e operam magia com as palavras — seu talento nato. Ursula nunca soube da existência do Tempos Fantásticos, mas gostamos de acreditar que também falava conosco quando disse que “tempos difíceis se aproximam, quando precisaremos das vozes de escritores capazes de enxergar alternativas a como vivemos hoje, capazes de ver outras formas de existência através da nossa sociedade abalada pelo medo, através de nossas tecnologias obsessivas. Talvez até imaginar motivos reais para a esperança. Precisaremos de escritores capazes de lembrar da liberdade — poetas, visionários — realistas de uma realidade maior.”

(texto publicado originalmente na newsletter do jornal Tempos Fantásticos – http://www.temposfantasticos.com)

A grande quantidade de gêneros, classificações e separações sob o guarda-chuva das literaturas fantástikas foi o primeiro tópico abordado na conversa com Fábio e Cláudia. Quais os fatores que impactam essas divisões? Se a literatura de cunho realista possui poucas divisões, baseadas essencialmente no formato da obra e não tanto no conteúdo, por que a fantástika deve ser classificada? E por que tantas subdivisões dentro do gênero?

Os palestrantes fizeram algumas ponderações. Primeiro, de certa forma, os autores de fantasia e ficção científica gostam desses rótulos, como se fosse algo acolhedor, e por vezes buscam enquadrar-se nesse ou naquele subgênero. Tanto em uma tentativa de reproduzir estilos de autores preferidos quanto de fazer parte de um nicho, mas também para poder entender em detalhe o que se está fazendo. Isso aponta que, muitas vezes, um escritor de literatura fantástika possui mais consciência daquilo que produz em termos formais do que um autor realista, que busca criar um retrato da realidade sob sua própria ótica. Assim, por abordarem artisticamente aquilo que já conhecem, o suposto real, esses autores lidariam apenas com “porquês”, enquanto os fantástikos buscariam extrapolar para um “por que não?”, um “e se fosse assim?”, questões que os levariam a vôos impossíveis e amplamente variados.

Por outro lado, há a justificativa mercadológica. Ficção Científica, Fantasia e Horror difundiram-se e cresceram no século XX graças a um apelo comercial. E a venda exige prateleiras ordenadas, pesquisas de tendências e bandeiras estendidas. Para tudo isso, as classificações são fundamentais. Se um subgênero se mostra mais vendável que outro, a editora procurará mais autores que possam ser enquadrados naquele recorte específico, em detrimento de outros. Mas, em última instância, quem define se uma obra faz parte deste ou daquele gênero, mais do que o próprio autor ou editora, são as percepções geradas pela obra na comunidade e no mercado ao longo do tempo.

O segundo tópico abordado foi a maneira com que o escritor nacional absorve ou é absorvido pelas referências da ficção estrangeira. Como deveria acontecer essa apropriação para que não se perca a brasilidade das obras, mantendo sua pertinência local?

Cláudia comentou que, no caso da ficção científica, há muito tempo nossos autores buscam incorporar seus elementos às obras nacionais. Um exemplo é “Um moço muito branco” (1962), conto de Guimarães Rosa. Um dos perigos, porém, de o autor se basear excessivamente na produção estrangeira é que seu texto pareça uma tradução aos olhos do leitor. Cenários de cidades americanas, estereótipos típicos, mitologias e até mesmo o uso da linguagem são elementos que podem afastar um romance da realidade brasileira. O jornal Tempos Fantásticos é um bom exemplo de captura do que é o Brasil, entendido por um viés fantástico.

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Fábio ressaltou que a fórmula deve ser de “muita absorção, mas ao mesmo tempo pouca absorção”. Os autores devem ler muito, conhecer profundamente tanto o que foi feito lá fora — e não só nos EUA e Inglaterra, mas também na Argentina, na França e em outros países — quanto o que já foi publicado no Brasil até hoje. Esse conhecimento, no entanto, não deve ser usado para a simples imitação. Pelo contrário, deve possibilitar que o autor vá além daquilo que já existe. É uma canibalização no sentido oswaldiano do termo. Laerte foi citada como exemplo de um excelente trabalho, sempre em constante diálogo com o que é produzido no exterior, porém carregado de conteúdo nacional.

Na sequência, foram abordadas as mudanças recentes na ficção fantástika nacional e as tendências para os próximos anos. Houve consenso de que está surgindo uma quarta onda da literatura fantástika brasileira, com grande quantidade de autores que escrevem bem e bastante. Ainda há o que se refinar em termos textuais e mais nomes devem aparecer, mas os entrevistados esperam que, nos próximos cinco anos, alcancemos talvez um dos melhores momentos da produção fantástika brasileira. O mercado também tem visto esses gêneros com menos preconceito, novas editoras especializadas têm surgido e até as tradicionais têm optado por abrir selos para publicação dessas obras.

Por fim, gostaríamos de ressaltar dois tópicos que surgiram durante as perguntas e que merecem destaque. Primeiro, em relação à situação política brasileira atual e o papel dos escritores, Fábio nos relembrou da triste realidade em que vivemos: um verdadeiro Estado de Exceção. Para ele, num contexto como tal, os escritores devem se politizar, valorizar a ética, entender que produção de cultura também é política. Fugir ao posicionamento torna-se, assim, mais um ato político, essencialmente conservador e de manutenção do status quo. Não há ficção inocente. Escritores devem subverter não apenas as normas dos gêneros literários e inovar formalmente, mas também repensar as concepções arcaicas de sexo, classe, raça, política e religião. Apenas dessa maneira criaremos obras relevantes e que repensarão o presente, mesmo que mostrando futuros impossíveis.

O segundo tópico gerador de debates foi a utilização de figuras do folclore nacional em narrativas fantásticas nacionais, da fantasia urbana à história alternativa. Foi apontado que, algumas vezes, essas ficções caem em certo ufanismo desmedido ou em infantilização dos temas. Porém, chegamos à conclusão de que isso não pode ser jamais uma justificativa que gere preconceito em relação a essas tentativas de resgate da nossa própria história, das lendas e da mitologia brasileira. Pelo contrário, devem ser aplaudidas quaisquer buscas de evitar a constante reiteração dos mitos de outras culturas que não a nossa. Uma das soluções apontadas para superar os problemas ainda presentes nessas histórias é ir além do óbvio e subverter os próprios mitos brasileiros, dando-lhes relevância e significação no contexto do presente histórico.

Este foi o breve resumo do evento de abertura do 1º Festival Literatura Fantástika.

O vídeo completo está disponível neste link:
https://www.facebook.com/taperataperah/videos/832854546905528/


Algumas obras sugeridas durante a discussão:

Disponível em português:

  • “A longa viagem a um pequeno planeta hostil” (2014), de Becky Chambers.
  • “Estação Perdido” (2000), de China Miéville;
  • “Frankenstein” (1818), de Mary Shelley;
  • “Nós” (1924), de Yevgeny Zamyatin;
  • “O fim da infância” (1953), de Arthur C. Clarke;
  • “O moço muito branco”, conto de Guimarães Rosa (“Primeiras estórias” – 1962);
  • “Os dias da peste” (2009), de Fábio Fernandes;
  • “Piratas do Tietê” (1983-), de Laerte;
  • “Piritas siderais: romance cyberbarroco” (1994), de Guilherme Kujawski;
  • “Santa Clara Poltergeist” (1990), de Fausto Fawcett;

Outras línguas:

  • “A Man Lies Dreaming” (2014), de Lavie Tidhar;
  • “Billion Year Spree” (1973), de Brian Aldiss (teórico);
  • “Fractured Europe” (trilogia; o primeiro volume é de 2014), de Dave Hutchinson;
  • “Infomocracy” (2016), de Malka Older.

Autores citados:

  • Aliette de Bodard (França);
  • André Vianco (Brasil);
  • Ann Leckie (EUA);
  • Elizabeth Ginway (EUA – Teórico);
  • Eneias Tavares (Brasil);
  • Felipe Castilho (Brasil);
  • Hermano Vianna (Brasil);
  • John Clute (EUA – Teórico);
  • José J. Veiga (Brasil);
  • Kelly Link (EUA);
  • Kim Stanley Robinson  (EUA);
  • Maria Teresa Echeverria Sanchez (Argentina);
  • Murilo Rubião (Brasil);
  • Renata Ventura (Brasil);
  • Richard Kadrey (EUA);
  • Ursula Le Guin (EUA).

[Comentem abaixo se esquecemos de algum nome!]

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