Blade Runner e nossas Crises Existenciais

Em novembro de 2017, em função da estréia de Blade Runner 2049, a Fantástica 451 organizou um TweetChat a respeito dos dois filmes baseados em Androides Sonham com Ovelhas Elétricas, de Philip K. Dick, publicado pela primeira vez em 1968. Discutimos algumas questões centrais das obras em pequenas pílulas de sabedoria de 140 caracteres. Falamos sobre existencialismo, sobre como uma obra complementa a outra e sobre a necessidade de se revisitar essa narrativa em 2017. A conversa integral pode ser lida aqui, mas decidimos facilitar a leitura através deste post.

O próprio Philip K. Dick afirma que seus temas principais são ‘O que é a realidade?’ e ‘O que constitui um autêntico ser humano?’. Levantamos algumas premissas para o que diferenciaria os humanos dos androides e como ficaria a sociedade com a participação de seres com inteligência artificial (IA).

Em primeiro lugar, entendemos que o autor usou os androides como metáfora para os humanos e suas relações artificiais. Lembramos que o filme deixou de fora a questão religiosa, que aparece nos livros, e como os humanos sentem necessidade de crer em algo maior. A religião apresentada por Dick, por sua vez, é tão artificial quanto as relações humanas. Também é importante lembrar que o que dá vida e consciência aos androides são suas experiências.

Unindo todas as premissas, chegamos à conclusão de que a existência dos androides só passa a valer quando existem além da utilidade do trabalho. Cada IA tem uma função – mas e se ela não tiver? E quando nós, humanos, tivermos nossa capacidade de trabalho ultrapassada pela IA?

I’ve seen things you wouldn’t believe”, vislumbra a máquina prestes a morrer. A humanidade dos androides – e dos humanos que eles representam – vem da sua habilidade de narrar as próprias experiências. Isso aparece também através das experiências compartilhadas entre Joe e a criadora de memórias em 2049. Lembramos que a própria Ursula Le Guin já falava que não existe civilização sem histórias. Quem conta histórias, portanto, tem a vantagem de ser considerado “civilizado”, enquanto aquele de quem as histórias falam é apenas “agente histórico”.

Blade Runner 2049 aprofunda a discussão da memória e da consciência como fator de humanização dos androides. A lembrança é o que ajuda os androides a darem sentido à própria existência e não, como podemos pensar à primeira vista, a reprodução. A gravidez de uma androide pode ser vista como libertação da criação pelas mãos humanas. Segundo a lógica desse universo, primeiro você toma consciência de quem você é para depois conseguir se reproduzir. Enquanto o primeiro filme foca na questão de ser ou não ser humano, o segundo imagina melhor o que constituiria um autêntico ser humano. Seria a capacidade de se reproduzir, de contar histórias? De se relacionar com outros indivíduos? De ter as próprias memórias? Todos esses momentos se perderão no tempo, como lágrimas na chuva.

Além das relações humanas e existencialismos, abordamos os motivos de O Caçador de Androides ser revisitado, trinta anos mais tarde. Além do motivo óbvio, a exploração da nostalgia dos anos 1980, e do mundo não estar tão diferente do passado quanto gostaríamos, falamos bastante sobre como nosso cotidiano está cada vez mais imbricado de inteligências artificiais e de corporações que controlam os dados colhidos por eles. E a gente? Por quanto tempo vamos nos deixar ser controlados?

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