Anotações: predomínio do realismo

Comecei a fazer um levantamento de artigos, opiniões, ideias a respeito do predomínio do realismo na literatura produzida em terra brasilis.

Há uma convenção cultural silenciosa que prega: o texto brasileiro só presta se for realista. Somente estão autorizadas traduções de clássicos ou textos voltados ao “público infantojuvenil” (aqui temos um segundo preconceito de gênero complicado). Bem, a quase totalidade de prêmios literários excluem qualquer tentativa fantástika como um erro, uma aventura, um arremedo de texto. Na academia e na redação de jornais e revistas, a convenção é seguida à risca. Bem sei.

Matutar sobre o problema da predominância do realismo é minha reflexão antes de dormir. Se vc quer que as literaturas fantastikas que amamos sejam levas minimamente a sério, precisamos entender os motivos de tanta ojeriza. Ou seja, se a gente estivesse dentro de O Homem do Castelo Alto, certamente sairia o conselho do I Ching: “Ir à caça sem um guia é perder o dia”.

Você tem alguma ideia? Tenho algumas, mas não muito bem estruturadas. Quase uns palpites.

Das coisas boas que encontrei nas andanças, topei com o artigo gaúcho “Ficção-científica brasileira: um gênero invisível” do Daniel Iturvides Dutra (ele irá estudou mais longamente Lovecraft) e no artigo, encontrei menção à dissertação carioca “Fantástica margem: o cânone e a ficção científica brasileira”, da Fabiana Pereira. Achei esse trecho dela muito bom para se pensar nessa rejeição:

“A literatura de ficção científica brasileira não bebe na única fonte de água limpa da influência estrangeira no Brasil: a tradição erudita. Ao contrário, ela exibe as marcas do imperialismo cultural capitalista, da importação massiva de artefatos da cultura estrangeira. Se a elite cultural sempre soube justificar tal importação no caso das ideias e formas refinadas, não é fácil, ou mesmo desejável, fazer o mesmo com aquilo que é, a priori, considerado refugo. O desprezo pelo gênero em sua versão brasileira não vem de um julgamento da qualidade deste material, mas se origina de um preconceito ou um impedimento ideológico. A literatura de massa estrangeira simplesmente não se encaixa no equilíbrio simbólico das importações culturais”.

Não é interessante? Ela irá longe em seus argumentos, apontando como a FC sairia destas matrizes, não se encaixando num projeto de formação de cânone, identitário. Estou ainda lendo, anotando. Nos meus palpites, meu ponto de partida é um pouco diferente, reflito mais a respeito da cultura autoritária que verdeja por aqui e não se permite pensar além do estritamente autorizado. As literaturas fantátikas, por excelência, nos pedem para ir adiante.

No mais, tanto Daniel Dutra quanto a Fabiana Pereira trazem um bom recorrido de autores da FC nacional. Uma fonte excelente se vc quiser saber mais é o Ficção Científica Brasileira com a curadoria do Luiz Bras.

Do texto do Daniel, não poderia concordar mais com a conclusão, cito um trechinho:

“O fato de haver uma ficção-científica brasileira existindo à margem dos padrões do cânone nacional mostra que há uma discordância entre o referencial do cânone oficializado e o referencial do público. Vivemos numa época onde o público é afetado cada vez mais pelos problemas e transformações provocadas pela tecnologia e a informação – temas obrigatórios de qualquer ficção-científica de boa qualidade. Sendo assim, o público cada vez menos se identifica com os padrões canônicos institucionalizados pela elite cultural brasileira.”

Enfim, tentar entender esse imbróglio é um bom ponto de partida para se contaminar de outras ideias e estruturas de sentir o mundo. Grandes esperanças. Vou dormir e espero sonhar algo razoável.

Imagem: Dunas e um turista no Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses de Artur Warchavchik

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DUTRA, Daniel Iturvides. Ficção científica brasileira: um gênero invisível. In Revista Letrônica – Revista Digital do Programa de Pós-Graduação em Letras da PUCRS, V. 2, n. 2 (2009).

PEREIRA, Fabiana Câmara Gonçalves. Fantática Margem. A Ficção-Científica e o Cânone Brasileiro. Dissertação (Mestrado em Letras – Faculdade de Letras, Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro), Rio de Janeiro. 2004.

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2 comentários sobre “Anotações: predomínio do realismo

  1. Olá, gostei da sua avaliação inicial, mas como uma autora de ficção científica negra (s/ achar muitos pares a volta), independente, lancei minha primeira obra – Duologia Brasil 2408 – a primeira com uma protagonista negra e vários outras representatividades fora do limiar oficial, que é muito antigo e não difere da “ideia purista” que o social e os “diferentes” não podem ser parte da FC, o tecnológico deve ser o foco, uma visão universal (branca/europeia). Isso têm raízes se formos pensar e pesquisar a literatura de modo a ver as “produções eugênicas” que reproduziam negros como inferiores ou dignos de desaparecer deste país, muitos destes escritos são citados como fabulosos, mas são racistas, parte de um projeto maior de melhora da nação, e mesmos muitos escritos aceitos de mulheres brancas vão fazer parte de um projeto de melhoria nacional, o perfil certo do cidadão e cidadã branco ou próximo disso como o nacional perfeito, aquele que vai alavancar a economia do país. Beberam de escritos propostos na época do racismo científico e de “cidadão de segunda classe” da mulher branca e se faz importante racializar para ler como a coisa acontece, que FC era esperada e projetada como de qualidade. E no caso do feminismo tb, mas falamos aqui de um feminismo branco, dentro de uma perspectiva de branqueamento lutando contras as ideologias de inferioridade da mulher branca. Pode buscar
    https://brasil.elpais.com/brasil/2017/03/08/ciencia/1488931887_021083.html
    As últimas discussões sobre o que é ou não FC mostram um padrão de comportamento e raça/gênero dos reclamantes aqui ou nos EUA, não por acaso.
    Tenho pesquisado sobre isso em larga escala para entender “o projeto” e é bem assustador ver seus resultados e ainda é difícil mudar toda uma consciência…

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    1. Olá, Lu,

      Agradeço teu comentário muito completo e também a leitura.

      Não sei se chegou a ver, mas estamos com a Revista Fantástika 451 com submissão aberta – você teria condições de contribuir com este número da revista? Acho que tuas reflexões são muito preciosas e necessárias, externalizar os incômodos, incongruências e preconceitos. Seria um texto de 2 mil a 7 mil caracteres. Caso não possa neste edição, haverá outras e reiteramos o convite. https://fantastika451.wordpress.com/revista/

      No grupo, recentemente a Dolores Galindo e a Priscilla Brito participaram de um chat sobre afrofuturismo. Teria sido muito bom se vc pudesse debater como escritora e apontar como o tema repercute em sua obra. https://fantastika451.wordpress.com/2017/12/08/chat-branco-sai-preta-fica/

      Enfim, você tem muito para contribuir e ficaríamos felizes se entrasse no grupo – o de e-mails ou por telegram – ou mesmo seguindo com bons comentários.

      E irei atrás do “Duologia Brasil 2408” 🙂

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